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3.2.1 -1º PASSO: leitura
3.2.1 -1º PASSO: leitura

 1. A leitura: conhecer, respeitar, situar:  A leitura é o primeiro passo para se conhecer e amar a Palavra de  Deus. Não se ama o que não se  conhece. É também o primeiro passo    do processo da apropriação da  Palavra: ler, ler, ler! Ler muito para familiarizar-se com a Bíblia; para  que ela se tome nossa palavra, capaz de expressar nossa vida e nossa  história, pois ela "foi escrita para nós que tocamos o fim dos tempos"  (l Cor 10,11). Esse processo de reapropriação da Palavra pelo povo está em andamento nas Comunidades.

 

A leitura é uma atividade bastante elementar: ler, pronunciar bem as palavras, se possível em voz alta Este primeiro passo é muito importante e muito exigente. Não pode ser feito de maneira superficial. Para muitos, a Bíblia é o meio principal de alfabetização e funciona como gramática. Pela leitura freqüentamos a Bíblia como se freqüenta um amigo.

 

Há uma semelhança muito grande entre a maneira de se conviver com o povo e com a Bíblia. Os dois exigem o máximo de atenção, respeito, amizade, entrega, silêncio, escuta. Os dois, tanto o pobre como a Bíblia, não se defendem logo, quando são agredidos ou manipulados, mas os dois acabam vencendo o agressor pelo cansaço. A leitura da Bíblia ajuda a criar em nós os olhos certos para ler a vida do povo e vice-versa.

 

A leitura, assim como a convivência com povo pobre, não pode depender do gosto do momento, mas exige da pessoa uma determinação constante e contínua. A leitura deve ser perseverante e diária. Exige ascese e disciplina.

 

Não ser interesseira, mas deve ser desinteressada, gratuita, em vista do "Reino e do bem do povo". A leitura é ponto de partida, não é ponto de chegada. Faz o leitor pisar no chão. Prepara o leitor e o texto para o diálogo da meditação. Para que a meditação não seja fruto de uma fantasia irreal, mas tenha fundamento no texto e na realidade, é necessário que a leitura se faça com critério e atenção. “Estudo assíduo, feito com espírito atento, dizia Guigo. Através de um estudo imparcial, a leitura impede que o texto seja manipulado e reduzido ao tamanho da nossa idéia, e faz com que ele possa ser parceiro autônomo no nosso dialogo com Deus, pois ela estabelece o sentido que o texto tem em si, independente de nós. Assim, a leitura cria no leitor uma atitude critica criteriosa e respeitosa diante da Bíblia”. E aqui, na leitura, que entra a contribuição da exegese para o bom andamento da Lectio Divina.

 

A leitura, entendida como estudo crítico, ajuda o leitor a analisar o texto e a situá-lo em seu contexto de origem. Esse estudo tem três níveis:

 

a) Literário: aproximar-se do texto e, através de perguntas bem simples, analisar o seu tecido: quem? O quê? Onde? Por quê? Quando? Como? Com que meios? Como o texto se situa dentro do contexto literário do livro de que faz parte?

 

b) Histórico: através do estudo do texto, atingir o contexto histórico em que surgiu o texto ou em que se deu o fato narrado pelo texto, e analisar a situação histórica em dimensões como: econômica, social, política, ideológica, afetiva, antropológica e outras. Trata-se de descobrir os conflitos que estão na origem do texto, nele se refletem para, assim, perceber melhor a encarnação da Palavra de Deus na realidade conflitava da historia humana, tanto deles como nossa.

 

C) Teológico: descobrir, através da leitura do texto, o que Deus tinha a dizer ao povo naquela situação histórica; o que Deus significava para aquele povo como Ele se revelava; como o povo assumia e celebrava a Palavra do Senhor.

 

O estudo científico do texto não é o fim da leitura. É apenas um meio para se chegar ao fim. A intensidade do uso da exegese na Lectio Divina depende não do exegeta, mas das exigências e circunstâncias dos leitores. Para um tipo de parede usa-se uma broca mais resistente do que para outro. Mas o objetivo é o mesmo: furar a parede. Não se usa broca de mármore para furar parede de papelão! O objetivo da leitura é este: furar a parede da distância entre o ontem do texto e o hoje da nossa vida, a fim de poder iniciar o diálogo com Deus na meditação. Qual a broca que fura essa parede? De um lado, é "o estudo assíduo, feito com espírito atento" (Guigo). De outro, e "a própria experiência adquirida da vida" (Cassiano). Paulo VI dizia que se deve "procurar uma certa conaturalidade entre os interesses atuais (hoje) e o assunto do texto (ontem), para que se possa estar disposto a ouvi-lo (diálogo)" (25-9¬1970). Com outras palavras a broca é esta: aprofundar tanto o texto de ontem quanto a nossa experiência de hoje! Às vezes, a Lectio Divina não traz resultado e o texto não fala, não por falta de estudo do texto, mas sim por falta de aprofundamento critico da nossa própria experiência de vida, hoje, aqui, na América Latina.

 

A leitura quando bem feita, ajuda a superar o fundamentalismo. Quando malfeita faz só aumentá-lo. O fundamentalismo é uma grande tentação que se instalou na mente de muita gente. Ele separa-o texto do resto da vida e da historia do povo e o absolutiza como a única manifestação de Deus. A vida, a história do povo a comunidade, já não teria mais nada a dizer sobre Deus e a sua vontade. O fundamentalismo anula a ação da Palavra de Deus na vida. E a ausência total de consciência critica. Ele distorce o sentido da Bíblia e alimenta o moralismo, o individualismo e o espiritualismo na interpretação dela. E uma visão alienada que agrada aos opressores do povo, pois ela impede que os oprimidos tomem consciência da iniqüidade do sistema montado e mantido pelos poderosos. Superar o fundamentalismo só é possível a medida que através da leitura, o leitor consiga ver dentro de seu contexto de origem e, ao mesmo tempo, perceber nele o reflexo da situação humana, tão conflitiva, confusa e controvertida, que hoje vivemos.

 

Qual o momento de se passar da Leitura para a meditação? É difícil precisar o momento exato em que a natureza passa da primavera para o verão. É diferente, a cada ano, em cada país. Mas existem alguns critérios. O objetivo da leitura é ler e estudar o texto a fé que ele, sem deixar de ser ele mesmo, se torne espelho de nós mesmos e nos reflita algo da nossa própria experiência de vida. A Leitura deve familiarizar-nos com o texto a ponto de ele se tornar nossa palavra. Cassiano dizia: "Penetrados dos mesmos sentimentos em que foi escrito o texto, nos tornamos, por assim dizer, os seus autores e aí, como que de repente, nos damos conta de que, por meio dele, Deus está querendo falar conosco e nos dizer alguma coisa. Nesse instante, dobramos a cabeça, fazemos silêncio e abrimos o ouvido: "Vou ouvir o que o Senhor nos tem a dizer!" (Sl 85, 9) É nesse momento que a Leitura se transforma em meditação e que se passa para o segundo degrau da Lectio Divina.